Um filme não tem de ser “realista” no sentido comum da palavra e sempre duvidámos dos que têm essa pretensão, pois trata-se, por natureza, de um objecto ficcionado. Logo, a verosimilhança, a maior ou menor adesão ao que se supõe ser “realista”, é um mau critério para aferir uma obra cinematográfica.
O que não significa que esse distanciamento em relação à realidade, ou aquilo que cada um de nós toma enquanto tal, se converta numa compulsão pelo inverosímil.
Dir-se-á que é o excesso que permite a caricatura e é esta que Luís Faria nos oferece, com intensa crueza, a acentuação do que há de mais risível no real. Só que, se era essa a intenção, Noite e Dia (no original Knight and Day) não é mais que um acto falhado.
O filme de James Mangold junta Tom Cruise (que assim regressa a papéis de espionagem) e Cameron Diaz num cocktail que se pretenderia explosivo mas que resulta entediante, resumindo-se à repetição obsessiva de cenas de acção gratuitas, tendo como pano de fundo um cenário feito da colagem de bilhetes-postais dos diferentes lugares por onde passa.
Aliás, o que mais irrita em Noite e Dia é a perspectiva redutora que nos dá dos diferentes territórios por onde a narrativa vai pousando, em que os indígenas funcionam como Mas a parafernália de golpes, contra-golpes, perseguições e escapadelas e o sistemático recurso ao humor previsível acabam por ofuscar todo o resto. Mangold esbanja meios na tentativa de seduzir o espectador: foi vultuoso o investimento efectuado nas inevitáveis proezas automobilísticas e correlativos efeitos pirómanos. Neste capítulo, o filme atinge o seu clímax com uma estonteante perseguição automobilística enxertada numa largada de touros em Sevilha.
Em lugar de descontinuidade narrativa tem-se uma completa ausência narrativa embrulhada em entretenimento fácil.
O filme até nem começa mal, com uma cena passada no interior de um avião: enquanto a pacata restauradora de motores que viaja ao encontro de um casamento familiar (Cameron Diaz) vai aos lavabos, o super-espião (Tom Cruise) que se cruza na sua vida despacha a golpes e a tiro os restantes passageiros, afinal de contas outros tantos malfeitores que andam no seu encalço. O pior é o que vem a seguir.
O projecto de comédia de espionagem que baralha os lugarescomuns do género poderia até ser interessante, os actores são bem escolhidos (Tom Cruise numa espécie de sátira de si próprio e Diaz como heroína chegada de uma banda desenhada) mas o realizador não tem talento para o por em prática e acaba por amontoar cliché atrás de cliché, cedendo ao facilitismo mais imbecil para assegurar a adesão do grande público, o que, admita-se, conseguirá em boa medida.