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Cartaz

Um filme sem rebocadores

Ao longo de um misterioso percurso por Espanha um homem vai-se cruzando com várias e estranhas personagens. Enquanto espera os seus sucessivos contactos senta-se sempre perante dois cafés expresso, uma duplicação que servirá porventura para identificá-lo. Pelo menos o espectador poderá imaginar que a finalidade é essa. Como poderá, terá mesmo, de imaginar tudo o resto no filme. A errância do homem, que nunca se sabe quem é, e que se remete, ao longo das quase duas horas de duração de Limites do Controlo, ao silêncio, tem um destino, um objectivo, que nos é veladamente revelado mas não completamente esclarecido, como nada o é, aliás, nesta obra minimalista eivada de surrealismo de Jim Jarmusch, epigrafada por um excerto do poema “Bateau Ivre” ( “Barco Bêbado”) de Arthur Rimbaud: “Ao descer rios impassíveis não me senti guiado por rebocadores”.

Limites do Controlo é, aparentemente, um thriller sobre crime e espionagem que, ao invés do ritmo intenso que caracteriza o género, se espraia, tal como a paisagem que percorre, numa irrepreensível e coesa monotonia, que destroça, desde o início, qualquer expectativa do espectador assente no estereótipo de filme de acção, desafiando, antes, a sua capacidade criativa.

O trajecto do homem sem nome, protagonizado pelo franco-africano Isaach de Bankolé, um habitué dos filmes de Jarmusch, ao longo de uma Espanha desértica (mesmo quando o filme decorre na paisagem urbana esta é despovoada, vazia) faz-se num silêncio permanente, apenas entrecortado pela música e pelo monólogo dos seus bizarros contactos: uma beldade lânguida (cuja pose se aproxima do quadro que o protagonista visita no Museu Reina Sofia, em Madrid), um músico, um dançarino de flamengo, todos cúmplices de uma maquinação criminosa, dissertam sobre arte e sobre ciência. O mutismo do viajante acolhe estes discursos fragmentados, tal como a nossa percepção apenas capta fragmentos transfigurados da realidade. O que homem que vem de nenhum lado não se permite a qualquer diálogo com os seus interlocutores, apenas os ouve e se limita, a espaços, a sentenças secas: declara não fazer sexo em serviço e adverte que não tolera telemóveis. Sempre extremamente contido, estritamente controlado, gelidamente profissional. Com os seus contactos só permuta caixas de fósforos que contêm mensagens cifradas, as quais vai engolindo. As caixas de fósforos são o único elo aparente (mais uma vez a aparência!) na narrativa. Jim Jarmusch, que regressa volvidos cinco anos sobre o seu último filme, “Flores Partidas”, e que já nos havia dado “Vencidos pela Lei”e “Café e Cigarros”, coloca-se completamente à margem do mainstream do discurso cinematográfico, desafiando-nos a participar na adivinhação de uma estória que não existe antes de ser construída na nossa mente a partir da narrativa poeticamente repetitiva que nos é proposta. A originalidade da sua escrita é enriquecida por uma banda sonora rigorosa, um elenco de luxo (Tilda Swinton, Bill Murray, John Hurt, Gael García Bernal, etc) e pela fotografia soberba de Christopher Doyle, o director fotográfico preferido do consagrado realizador oriental Wong Kar-Wai . O filme é de uma rara beleza visual.

Em definitivo, um filme que não se recomenda a quem espera deparar-se com mais um blockbuster de acção criminosa. Nem a quem não dispensa uma boa estória. É preciso estar disponível para contemplar a beleza única do silêncio, para escutar as dissertações curtas mas repetidas sobre a arte e a realidade e para alimentar os sentidos com uma fotografia magnífica, que combina planos longos de cores fortes, onde os personagens recortam a paisagem, e belíssimos planos aéreos, que sublinham que “o universo não tem centro nem arestas”. Em suma, um filme para quem não espere sentirse “guiado por rebocadores”.

Luís Faria
15 de Julho de 2010
10:23
 
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