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Dossier Mbanza Kongo

Peritos acertam detalhes do ‘Dossier Mbanza Kongo’

Volvidos alguns dias de intenso trabalho à volta da preparação do Dossier “Mbanza KongoCidade a Desenterrar”, para a sua inserção na lista do património universal, peritos da UNESCO, Instituto Nacional do Património Cultural, Construção e Urbanismo e Governo da Província do Zaire acertam os últimos detalhes visando o seu enriquecimento e determinam áreas de intervenção.

Para o efeito, foi criado um plano director que define as áreas de preservação e intervenção tais como a transferência do aeroporto local dado o seu posicionamento no interior da urbe, o levantamento topográfico da região por satélite, de modo a garantir a preservação do bem cultural.

Junta-se este recurso ao manancial documental histórico, este último já em curso e intervenções de pesquisas no domínio arqueológico para que os resultados a obter e as ilustrações sejam adicionados ao relatório exigido pela UNESCO.

Apesar do seu património não estar em risco de supressão, carece, no entanto, de trabalhos de manutenção preventiva, sobretudo as ruínas da antiga Igreja para evitar a degradação e facilitar a identificação de vestígios nas áreas da administração do antigo Reino do Kongo, o que na óptica dos especialistas passa necessariamente pela conjugação de esforços de todos quanto estiverem envolvidos directa ou indirectamente no processo. Há também necessidade de se efectuarem limpezas regulares às outras áreas como o cemitério, a Missão Protestante, actualmente em estado de abandono, e o local onde se encontra o Palácio do Rei do Kongo.

Para o efeito, o Ministério da Cultura através do Instituto Nacional do Património Cultural, Urbanismo e Construção, Hotelaria e Turismo e Governo Provincial do Zaire constituirá proximamente duas equipas para servir de ponte entre a capital e a cidade de Mbanza Kongo durante as operações nos domínios já referenciados.


Por dentro da cultura

Apesar de se registar um movimento reduzido em relação às outras cidades, Mbanza Kongo não é uma cidade morta. Ainda mantém preservada a sua cultura secular como é o caso da corte tradicional presente até aos nossos dias e que tem registado dois julgamentos por semana e a sua rica indumentária.

Quem para lá se desloca pela primeira vez, ao entrar, a norte da cidade, certamente encontrará dois monumentos simbolizando os heróis tombados em defesa da pátria. Prosseguindo encontrará uma avenida que leva até ao extremo sul onde se encontra o Palácio do Governo Provincial, terminado no ponto mais alto da colina cuja topografia cai exactamente em ambos os ângulos, permitindo maior visibilidade as ruínas da antiga Igreja e mais adiante a Catedral.

Do ponto de vista cultural, Mbanza Kongo caracteriza-se pelo conjunto da cultura material e espiritual kikongo dentro da área sócio-cultural, vários subgrupos, como os vata, soso, zombo, sorongo, yaka, kongo, pombo, suku, oyo, vile e yombe ocupando maioritariamente a zona norte entre o mar e o rio Kwangu, sobretudo entre as províncias de Cabinda, Zaire e Uige.

São agricultores na estação chuvosa e afirmam-se com capacidade notável para a escultura, incluindo o talhe de máscaras coloridas entre os bayaka, seu subgrupo; hábeis na confecção da chamada “arte sacra”, e mestres na manufactura de mabela (tecidos de ráfia executado ao tear vertical).

Os bakongo são tidos como propensos a um misticismo particular, sobretudo na criação de instituições de carácter religioso e sincrético, tendência que se expande até aos nossos dias com o surgimento de associações profético-messiânicas que assumem o carácter de seitas.

Para a harmonização social, existe o “feiticeiro supremo”, uma espécie de sumo-sacerdote, capaz de detectar os causadores do mal na comunidade, através de um espelho que coloca no baixo-ventre. Essa entidade é conhecida como nkisi konde, representada numa escultura em madeira e cravada com pregos.

Em algumas cerimónias religiosas, as máscaras bakama ou indunga e a ndemba marcam a sua presença, não só para consagrar o acto, como também servem como intermediários entre os viventes e o mundo dos espíritos ancestrais.

Alguns subgrupos bakongo mostram-se muito aptos para o negócio, como por exemplo os zombo, os oyo e os solongo e, as kitanda ou mercados constituem uma das principais actividades.

Na organização social, toma evidência o kanda ou clã muito ligado ao terreno agrário sob protecção dos antepassados, aos quais pertence, restando aos vivos o direito de usufruto do mesmo, apesar do princípio das terras clânicas apresentar sempre implicações de vária ordem como é o regime de concessão sob orientação dos mfumu ntoto (donos ou senhores das terras).

À semelhança com outros bantu, ao bakongo primam pelo valor da família desde a nuclear à extensa, sendo a mulher um elemento fundamental na estrutura familiar.

Um dos seus adágios aponta que “ o casamento é negócio e os filhos são o lucro”, para os bakongo o casamento só pode ser consumado com a entrega completa do khamalongo (compensação matrimonial em bens, dinheiros ou animais que a família do noivo oferece aos parentes da noiva).

Na sua idiossincrasia, os casamentos civil e religioso são apenas formalidades e sem valor enquanto não se cumprir com as obrigações tradicionais. Na entronização dos mfumu (chefes tradicionais), realiza-se uma cerimonia de consagração e legitimação, na qual os espíritos dos antepassados são invocados.

É o caso do ritual de vela kya Soyo em que os anciãos cantam, dançam e aspergem o maruvu ou vinho de palmeira, da boca para a cercania do local da cerimónia.

 

Corredor do Kwanza também candidato à UNESCO

Um conjunto de acções visando a inscrição do “Corredor Fluvial do Kwanza” a lista do património mundial será desenvolvido proximamente por técnicos do Ministério da Cultura e o Governo Provincial do Kwanza-Norte.

A informação foi avançada pela ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva, no quadro da sua recente visita àquela província, onde em companhia do Governo local passaram em revista questões relacionadas com a preservação do património cultural.

Na ocasião, a ministra assegurou que o seu pelouro realizará nos próximos dias estudos sobre a navegação fluvial e marítima, bem como o estabelecimento de parcerias com as Universidades Kimpa Vita, Agostinho Neto e Lusíada para pesquisas e divulgação dos monumentos e rotas comerciais ao longo do Corredor Fluvial do Kwanza.

A governante, sublinhou que o projecto incluirá igualmente estudos sobre o historial das regiões dos Kilombos, existentes na província, envolvendo pesquisas orais junto da população, o desenvolvimento do artesanato para a promoção do auto-emprego e a mobilização dos jovens artesãos visando a sua participação na Feira Nacional da Indústria Cultural, a decorrer em Agosto próximo na cidade do Dondo.

Augusto Nunes
19 de Julho de 2010
12:14
 
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