Uma exposição fotográfica denominada “Hereros”, sobre a vida destes povos que habitam a região Sul de Angola, será inaugurada terça-feira próxima, em Luanda.
A referida mostra, que estará patente no Museu Nacional de História Natural até ao dia 26 de Agosto, é da autoria do fotógrafo e publicitário brasileiro Sérgio Guerra que fará igualmente a apresentação de um livro sobre o mesmo assunto.
Este trabalho é resultado de várias deslocações que o autor fez às províncias do Namibe e Cunene entre 2009 e 2010, tendo produzido mais de dez mil imagens e feito recolha de mais de uma centena de depoimentos.
A exposição comporta mais de 50 painéis fotográficos, a maior parte com dimensões 80x80 centímetros, que poderão ser adquiridos pelos interessados a preços que serão conhecidos no local. A receita reverterá para acções de promoção social nas comunidades hereros.
Quanto ao livro, intitulado “Hereros – Angola”, trata-se de uma edição bilingue (português/inglês) com 260 páginas e 250 fotografias que retractam o modo de vida e as tradições daquela etnia que habita igualmente a Namíbia e Botswana. Sob a chancela da Maianga Edições e com apoio cultural do BAI (Banco Africano de Investimentos), a publicação vem acompanhada de um CD com 18 faixas de cantos quotidianos.
Para além de Luanda, uma outra exposição fotográfica será feita em Lisboa com o mesmo tema, entre os dias 19 de Agosto e 18 de Setembro, e que irá comportar outras 50 imagens. Sérgio Guerra ressalta que este projecto que irá culminar com o lançamento, em breve, de um documentário, coincide com um importante momento que Angola atravessa, no qual são discutidos os conflitos e as possíveis convergências entre as culturas tradicionais e o acelerado processo de desenvolvimento do país após 2002.
“Os hereros não se negam à reflexão, ao diálogo e à mudança, pois muito já tiveram que mudar ao longo do tempo.
Já não são iguais aos seus antepassados, mas desejam trilhar um caminho que não os leve obrigatoriamente à completa descaracterização da sua economia e da sua cultura”, entende.
“Quando vi os hereros pela primeira vez foi como se uma porta da minha percepção tivesse sido aberta para algo que sabia existir, mas hesitava em acreditar”, diz Sérgio Guerra.
Aconteceu em 1999, altura em que o fotógrafo aproveitou para registar imagens dos mukubais, um dos subgrupos dos hereros. Sete anos depois, retornou ao Namibe e descobriu outros subgrupos: os muhindas, os muhacaonas, os mudimbas e os muchavícuas.
Na convivência com os hereros, com os quais privou em 2009 e 2010, Sérgio Guerra percebeu que, mesmo em Angola, muito pouco se sabia acerca dessa etnia.
“Pensei que poderia ser útil, de alguma maneira, partilhar com um número maior de pessoas tudo aquilo que me foi dado a conhecer sobre eles”.
Para conhecer mais de perto o modo de vida dos hereros, Sérgio Guerra passou algumas temporadas nas comunidades dessa etnia no Sul de Angola e pôde observar as práticas quotidianas.
“Mesmo diante da escassez, eles dividem sempre o alimento com os demais. Cultivam a solidariedade, evitam o personalismo e o egocentrismo, praticam uma economia familiar de grande inteligência, sempre voltados para a amplificação de um património cujo usufruto é sempre colectivo. Honram e festejam os seus antepassados e praticam com grande eficácia a justiça, coibindo infracções com pesadas multas que, a um só tempo, são prejuízo económico e reprimenda moral”, escreveu Sérgio Guerra no texto de apresentação do livro.
A convivência com os hereros fez o fotógrafo perceber que, apesar da sua lógica de vida muito particular, eles já não vivem tão isolados e lidam com alguns mecanismos que caracterizam o que se costuma chamar de civilização.
“Eles fazem comércio, já frequentam escolas, consomem álcool, locomovem-se entre a aceitação e a recusa de tudo isso. desde o século passado, pelo menos, eles já mantinham contacto intenso e compulsivo com a sociedade moderna e com o homem branco”, explica.
Os hereros são um povo de origem quase mítica que, ao longo de sucessivas migrações, do norte para o sul do continente, teria chegado ao território angolano entre os séculos doze e quinze. São eminentemente pastores, polígamos e semi-nómadas.
Mais do que meio de sustento, o gado para os hereros é um referencial simbólico que atravessa toda a cultura, definindo as suas formas de viver. Os traços principais da cultura herero remontam há mais de três mil anos, herdados de povos ancestrais. Vêm desde esta origem, por exemplo, a prática de circuncisão e o hábito de extraírem os quatro dentes incisivos permanentes inferiores ainda na infância.
Divididos entre três países – Angola, Namíbia e Botswana – os hereros totalizam hoje uma população de mais de 240 mil pessoas. Em Angola, eles estão presentes nas províncias do Cunene, Namibe e Huíla e possuem uma história de resistência marcada de sangue, não se submeteram à escravidão.
No outro lado da fronteira, no que é hoje a Namíbia, os hereros opuseramse à tentativa de dominação alemã, o que os tornou vítimas de um dos maiores genocídios da história. Em 1904, 80 por cento deles foram massacrados pelas tropas alemãs do general Lothar von Trotha (1848-1920).
Em Angola, os hereros – particularmente os mucubais – foram de grande importância para o movimento de resistência à colonização portuguesa, tendo sofrido grandes perdas e dispersão de populações em meados do século passado.
Fotógrafo, publicitário e produtor cultural, Sérgio Guerra nasceu no Recife, estado de Pernambuco, no Brasil, e vive em Luanda desde 1998. “Hereros – Angola” é o seu sétimo livro de fotografias que tem Angola como tema, sendo que já publicou “Álbum em Família” (1999), “Duas ou três coisas que vi em Angola” (2003), “Nação Coragem” (2003), “Parangolá” (2004), “Lá e Cá – Um Encontro de São Paulo com São Joaquim” (2006) e “Gente de Angola” (2009).
Em Angola, Sérgio Guerra dirige a agência de publicidade M’Link e foi o responsável pela criação do programa Nação Coragem, da iniciativa “Ponto de Reencontro da Grande Família Angolana” e do programa “Angola em Movimento”, exibidos pela TPA.
A partir de 2001, esteve à frente da Maianga Produções, tendo coordenado a produção de obras discográficas de importantes artistas angolanos, como Carlitos Vieira Dias com o álbum “As Vozes de um Canto”, Paulo Flores com “Vivo” (CD e DVD) e “Xé Povo”, Wyza com “África Yaya” e “Bakongo”, Kituxi com o álbum “Kufikissa”, para além do Cd e DVD “Quintal do Semba e do Cd “Com Fusões”, com remix de canções angolanas.
No Brasil, produziu vários álbuns discográficos, como os das cantoras Elza Soares e Jussara Silveira e do cantor e compositor José Miguel Wisnik.